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Temporada 1 · Episódio 5

Episódio 5 - Ninguém me avisou que chuva no volante pesava

A Lena me entregou a chave do carro como quem entrega uma prova já corrigida, com a resposta ainda em aberto.

— É o aniversário da Emma, colega da Deby. Sítio Recanto do Lago, depois do posto da estrada velha. Você leva, fica, traz. Eu tenho plantão até de noite. O endereço está no papel, o presente está na bolsa rosa, e o suco está na mochila para ela não pedir refrigerante o caminho inteiro.

— Eu levo.

Deby já estava de vestido amarelo, laço torto, sapato que apertava e mesmo assim ela não tirava, porque festa pede sapato de festa. Eu ajeitei o laço. Ela me olhou com aquela confiança inconveniente de criança que ainda acha que adulto resolve o mundo.

— Vai ter pônei, tia Chelle. A Emma falou. E bolo de chocolate com granulado, e uma piscina de bolinha que não é piscina.

— Então a gente não pode atrasar o pônei.

A estrada velha saía da cidade devagar, primeiro com casas, depois com lote, depois com mato e placa torta. O carro da Lena era um popular cansado, cheiro de pinho barato e de lanche esquecido. Deby cantava no banco de trás, desafinada e feliz, e eu dirigia com as duas mãos no volante como tinha prometido a mim mesma que dirigiria: devagar, seta, espelho, sem pressa de provar nada. O céu estava claro. Claro demais, daqueles que mentem até a tarde.

O Recanto do Lago aparecia depois de uma curva, um portão de madeira pintado de verde, uma bandeirinha já caída, o som de música infantil vazando para o cascalho. Lá dentro, o sítio era pequeno e inteiro: um lago raso com pedalinho que ninguém usava porque a água estava fria, um cercado com dois pôneis pacientes e uma cabra que comia a faixa de parabéns, mesas de plástico sob um toldo, e a tal piscina de bolinha, que era um cercadinho de plástico transbordando de bolas murchas. Cheirava a bolo, a grama cortada e a protetor solar.

A mãe da Emma me recebeu com o alívio de quem conta criança de dez em dez.

— Você é a tia? A Lena avisou. Pode deixar a Deby com as outras. Tem suco na mesa e um canto de sombra se você quiser sentar.

Eu sentei e não sentei. Fiquei de pé na beira do cercado, vendo a Deby perder o medo do pônei em três minutos e ganhar um granulado no queixo em quatro. Tirei foto. Amarrei de novo o laço. Segurei o sapato quando ela quis entrar descalça na bolinha. Quando um menino empurrou a fila do bolo, eu pus a mão no ombro da Deby e esperei a vez, sem transformar isso em guerra. Por algumas horas, a responsabilidade coube em mim sem rasgar.

O sítio tinha um ritmo próprio, lento e barulhento ao mesmo tempo. As crianças corriam do cercado para a mesa e da mesa para um balanço que rangia como se fosse desmontar e não desmontava. Um tio da Emma tocava violão mal, de propósito, e as mães riam no toldo com copo de suco. Eu ajudei a cortar o bolo porque a faca estava cega e ninguém queria a primeira fatia torta. Fiquei com granulado debaixo da unha e com a Deby no colo um minuto, quando o pônei espirrou e ela achou que era raiva. Expliquei que pônei também espirra. Ela acreditou. Essa fé pequena me segurou a tarde inteira.

Teve uma hora em que ela sumiu atrás do cercado da cabra e o meu peito deu o pulo antigo, o de quem já perdeu criança de vista. Eu contornei a cerca, achei o amarelo do vestido e a Deby agachada, oferecendo grama com a seriedade de um tratado. Não gritei. Só sentei no cascalho ao lado dela até a cabra aceitar a grama, e depois voltamos para a mesa como se eu não tivesse, por dois segundos, visto a festa inteira acabar. Ninguém notou. Eu notei. Guardei como vitória muda.

Teve o parabéns, torto e alto. Teve a Deby assustada com a cabra e eu ajoelhada no cascalho, explicando que cabra não come laço, só finge. Teve suco derramado na minha calça e eu rindo, porque mancha de suco era um problema pequeno, dos que se lavam. A Emma abriu o presente — um estojo de canetinhas que a Lena tinha escolhido — e a Deby ficou orgulhosa como se o desenho já estivesse pronto. Eu guardei aquele orgulho no peito, bobo e quente, e pensei que talvez o dia inteiro pudesse ser só isso.

Na hora de ir, o céu tinha mudado de ideia. Uma nuvem baixa, cor de zinco, cobria o posto da estrada velha. A Deby dormia quase, abraçada na sacolinha de lembrancinha, um apito de plástico que ela prometeu não apitar no carro e apitou uma vez, só para ver se eu ria. Eu ri. Liguei o pisca. Entrei na estrada.

A chuva começou fina, depois grossa, daquele jeito que o limpador não dá conta. O asfalto ficou escuro. O farol do carro de trás abriu um risco branco na água. Eu diminuí. A Deby perguntou se a gente ia chegar antes do desenho. Eu disse que sim. A voz saiu normal. A mão, não.

Foi no primeiro lampejo que o volante ficou pesado.

Não era a estrada. Era outra chuva, por dentro da cabeça, tão nítida que o cheiro de pinho sumiu e entrou cheiro de asfalto molhado e de borracha quente. Eu me vi sentada em algum lugar baixo, cobertor áspero nos ombros, o cabelo colado na cara, chorando daquele choro que não pede plateia. Alguém falava meu nome e eu não respondia. Uma luz vermelha e azul batia na poça e quebrava.

Pisquei. O limpador rangeu. A Deby chutou o banco.

— Tia, você passou do rádio.

— Já volto nele.

O segundo lampejo veio com sirene, não a de agora, a de antes. Um homem de jaleco ajoelhado, luva azul, lanterna nos meus olhos. “Olha pra mim.” Eu olhava e não via. Atrás dele, outro vulto com prancheta, distintivo opaco de chuva, a voz de quem repete pergunta para quem não consegue ouvir a própria. Polícia. Rádio estalando. Alguém correndo com uma mala aberta. Eu chorava e pedia, sem formar a frase, para aquilo parar, e o pedido não tinha destinatário.

Apertei o volante até doer. O carro obedeceu mais um quilômetro. A chuva não.

No terceiro, eu estava de pé e ao mesmo tempo não estava. Uma maca passou por mim, ou eu pensei que passou, lençol, roda, pressa. Uma mulher chorava perto demais e longe demais, o rosto virado, a voz rachada, e eu não conseguia chegar nela. Um policial pedia para eu ficar sentada. Um médico dizia “ela está em choque” para outra pessoa, não para mim. Eu via a própria mão tremer, pequena, suja de alguma coisa que a chuva não tinha lavado, e o choro subia de novo, alto, feio, sem história em volta — só o depois, só a luz, só o medo.

Eu encostei.

O acostamento era estreito, mato de um lado, pista do outro. Liguei o pisca-alerta. O som dele encheu o carro, tic, tic, tic, e eu não conseguia fazer a mão descer para a marcha. O peito fechou. A vista embassou por dentro, além do vidro. Eu abaixei a testa no volante e chorei, baixo primeiro, depois sem medida, como se o carro fosse o único quarto que me restava.

— Tia Chelle?

A Deby tinha soltado o cinto pela metade e se inclinava entre os bancos, o laço desfeito, os olhos grandes.

— Por que a gente parou? O carro quebrou? Você tá chorando.

— Não quebrou. Eu… já passa. Fica sentada, amor. Cinto.

Ela obedeceu pela metade, que é o jeito das crianças quando o adulto mente mal. Pôs a mão no meu ombro, quente, sem entender, e essa mão doeu mais do que a memória, porque ela merecia uma tia que atravessasse a chuva e eu tinha virado a chuva.

Fiquei assim não sei quanto tempo. Os carros passavam e jogavam água na porta. Eu tentava girar a chave de novo na cabeça — só dirigir, só a cidade, só a Lena esperando — e o volante continuava sendo outra coisa, um bicho, uma prova. Eu não ia conseguir. Eu sabia, com uma clareza nojenta, que se eu saísse dali dirigindo ia errar a curva por medo, não por estrada.

A batida no vidro me fez levantar a cara.

Do lado de fora, na chuva, um casaco escuro, uma bike caída no cascalho, e o rosto do Ren, molhado, sem alarde. Ele fez um gesto de pedir para abrir um palmo. Eu abaixei o vidro o suficiente para a água entrar.

— Michelle? O carro morreu?

A voz era a mesma do café e da praça: leve, sem invadir, como quem oferece a mão e deixa a pessoa decidir se pega.

— Não morreu. Tá ligado. Eu só… parei.

— Parei no acostamento, com pisca e com chuva, costuma ser o carro pedindo ajuda. Posso olhar o motor? Minha tia mora um pouco depois daqui. Eu estava voltando de deixar uma compra pra ela e a chuva me pegou no meio. Vi o pisca e achei que vocês tinham ficado na mão.

Deby enfiou a cabeça no vão do vidro.

— O carro não quebrou. A tia chorou e não quer mais dirigir.

Eu fechei os olhos um segundo. Ren não sorriu daquilo. Também não fez cara de susto grande. Só assentiu, a chuva escorrendo do capuz, e falou para a Deby como se falasse com gente.

— Então a gente resolve sem o motor. Pode ser?

— Eu consigo — eu disse, e a frase saiu fina. — Me deu uma tontura. Já passou. Coisa de não almoçar direito no sítio.

Ele olhou o painel, o pisca, a minha mão ainda branca no volante. Não discutiu a tontura. Também não fingiu que acreditava inteira.

— Se for tontura, pior ainda você seguir. Eu dirijo até a cidade. A bike fica presa na placa ali. Eu volto nela depois, ou peço carona pro trecho. Vocês não ficam neste acostamento.

Eu quis recusar. Quis dizer que era o meu combinado, a minha chave, a minha prova. A Deby tremia de frio de ar-condicionado e de medo de adulta chorando. Eu soltei o volante.

— Tá. Só até em casa. E não comenta com a Lena desse jeito. Diz que… a chuva estava forte e eu preferi não arriscar. Tontura. Só isso.

— Eu digo o que você quiser dizer. O resto é seu.

Ele deu a volta, eu passei para o banco do carona, e a bike ficou amarrada numa placa comida de ferrugem, pequena demais para o favor. Ren entrou molhado, ajustou o banco, checou o espelho e a Deby no cinto, e saiu devagar, como quem não transforma ajuda em espetáculo. O limpador voltou a ranger. A estrada voltou a ser estrada.

Eu fiquei olhando a água no vidro para não olhar para ele. Inventei o resto em silêncio, ensaiando para a Lena: almoço ruim, cabeça leve, prudência. Nada de medo. Nada de luz azul. Nada de cobertor nos ombros. A Deby, atrás, contou o pônei durante três minutos e depois dormiu de verdade, a testa no cinto, a lembrancinha no colo.

Perto do posto, Ren falou baixo, para não acordá-la.

— O sítio foi bom?

— Foi. Ela riu o bastante por uma semana. Comeu bolo, fez as pazes com uma cabra e me sujou de suco. Dia de criança, do começo ao fim.

— Que bom. Dia bom é dia bom, mesmo quando a volta complica.

Eu olhei o limpador varrer a mesma água duas vezes. Quis dizer que a volta tinha aberto uma porta que eu mantenho trancada, e que a tontura era o nome mais limpo que eu tinha achado para não dizer medo. Não disse. Inventar, naquele carro, era o único jeito de chegar inteira. Então puxei o outro assunto, o que cabia.

— E você? Sério. O que estava fazendo naquela estrada, de bike, no meio desse dilúvio? Sua tia não podia esperar o tempo abrir?

Ele deu um meio sorriso, sem tirar o olho da pista.

— Podia. Eu é que não gosto de deixar compra mofando na mochila. Arroz, um remédio, pão. Coisa nenhuma de herói. Ela mora sozinha depois da curva e eu passo lá aos sábados. A chuva entrou no plano sem pedir licença.

— Você podia ter parado num posto.

— Parei. No acostamento de vocês.

Eu bufei, quase rindo, e a risada saiu menor do que eu queria.

— Por que você sempre aparece quando eu preciso de alguma coisa?

A pergunta ficou no ar junto com o cheiro de chuva na roupa dele. Ren pensou um segundo, daquele jeito que não é pose.

— Cada um tem a praga que merece.

— Você não é uma praga.

Saí rápido demais. Ele riu baixo, curto, e o riso chegou no canto do olho.

— Eu estou falando de mim.

A gente se olhou um instante, o suficiente para eu entender a piada e o que tinha por baixo dela, e não o suficiente para virar declaração. Eu sorri. Ele também, pequeno, sem pressa de transformar aquilo em outra coisa. Sem pensar muito, estiquei o braço e dei um soco leve no ombro dele, mais encosto do que soco.

— Idiota.

— Pode ser. Mas idiota com carteira e com o pisca ligado.

A Deby resmungou no sono e a gente baixou a voz de novo, cúmplices de uma coisa que ainda não tinha nome. O ombro dele ficou na minha mão meio segundo a mais do que o soco pedia. Eu recolhi. Ele não comentou.

— Se a Lena perguntar, foi a chuva. E a tontura. A Deby pode falar que eu parei. O resto não precisa de plateia.

— Combinado. Eu sou bom em não perguntar o que não é meu.

— Você pergunta o bastante.

— Então eu paro por aqui.

Não parou de todo. Ficou aquele resto de sorriso, e o carro seguindo macio, e eu agradecendo com um som que quase não era palavra. Ele aceitou o som.

Na porta da casa, a chuva já afrouxava. Ele parou, puxou o freio, e não desligou a chave até eu confirmar que a Deby estava acordando em paz. Eu peguei a bolsa rosa. Ele ficou um segundo com as mãos no volante emprestado, olhando a rua, não o meu decote, não a minha boca.

— Michelle.

— O carro está bem. Eu é que… tontura. Já falei.

Ele assentiu, devagar.

— Você ficou muito assustada. Apostaria que alguma coisa te deu medo. Mas fica só nisso. Eu não vou perguntar o quê.

A frase pousou entre a gente sem abrir a porta. Eu não confirmei. Não neguei o bastante para ser verdade. Só peguei a Deby pela mão, disse obrigada num fio, e entrei antes que a cara me entregasse de novo.

Lena ainda não tinha chegado. Eu sequei o cabelo da Deby, pus o desenho na geladeira, inventei a tontura para o espelho até ela soar possível. Eu não abri. Fiquei na cozinha ouvindo a chuva acabar na rua, com as mãos ainda lembrando o volante, e com a certeza de que o Ren tinha visto o medo e, por enquanto, tinha deixado o medo comigo.

Ninguém me avisou que chuva no volante pesava. Ele levou a gente até a porta. O resto, eu continuei sem nome.