Temporada 1 · Episódio 4
Episódio 4 - Ninguém me avisou que festa de amiga também cobra
A Brittany me chamou no
intervalo, encostada na câmara fria, com aquele brilho de quem já decidiu a
noite dos outros.
— Festa na casa da
minha prima. Música alta, gente bonita, zero criança. Você vem.
— Eu trabalho amanhã.
— Você trabalha sempre.
E anda com cara de quem esqueceu o próprio nome. Vem ser você um pouco.
Ser eu. A frase entrou
fácil, como um copo que a gente aceita sem olhar o rótulo. Eu queria aquilo: o
barulho, o corpo, a sensação antiga de que a noite me devolvia no lugar. Desde
a calçada eu andava uma versão mais quieta de mim, e quieta não combinava com a
Michelle que eu conhecia.
— Tá. Eu vou.
Ela bateu palma baixa,
como quem ganha uma aposta, e voltou para o salão já contando a noite em voz
alta para ninguém: o que ia vestir, quem ia estar, o quanto eu precisava
“soltar o cabelo de tia”. Eu ri porque era mais fácil rir do que admitir que a
frase tinha acertado.
O resto do turno passou
sem grandeza. A Glória cobrou sorriso de um cliente que pedia o café como se
pedisse favor, o Derick ofereceu carona no fim e eu disse que já tinha
programa. Ele assentiu com aquela educação magoada que não pede explicação. Eu
não dei. No bolso, o anúncio de medicina fez volume o dia inteiro, e eu tratei
o volume como moeda esquecida: sabia que estava lá, não ia gastar.
Em casa, tomei banho
demorado, escolhi o vestido que sempre funcionava nas festas e passei o batom
duas vezes, porque a primeira ficou honesta demais. No espelho, a Michelle
antiga apareceu por um segundo — boca, ombro, a postura de quem entra num lugar
e o lugar se vira. Eu pratiquei o sorriso. O sorriso obedeceu. O peito, não.
Em casa, a Lena estava
no sofá com a Deby e um desenho. Eu passei reto o bastante para parecer ocupada
e devagar o bastante para não parecer fuga.
— Vou sair com a
Brittany. Volto.
Lena ergueu os olhos.
Não fez sermão. Só mediu o meu batom e o meu casaco.
— Volta mesmo.
— Volto.
A Deby acenou sem tirar
os olhos da televisão. Eu fechei a porta com a promessa ainda quente na boca.
A casa da prima era
daquelas com luz rosa demais e sofá que já tinha visto coisa demais. Música
alta, copo de plástico, gente se conhecendo pela terceira vez na mesma semana.
Alguém gritava o refrão errado. Alguém filmava. O chão grudava. A Brittany me puxou
pela mão até a cozinha, serviu alguma coisa doce e forte e brindou com o
próprio copo.
— À Michelle de sempre.
Eu bebi. O líquido
desceu familiar, e por um minuto o mundo afrouxou do jeito que eu gostava.
Dancei com ela, depois sozinha, depois com um círculo de gente cujo nome eu não
ia guardar. Ri alto. Deixei a música ocupar o lugar da cabeça. Por um instante
deu certo: eu era leve, eu era boca, eu era a menina que não devia nada a manhã
nenhuma.
Dylan apareceu nessa
leveza. Camisa aberta no ponto certo, sorriso de quem não pergunta nome duas
vezes, mão na cintura como quem já tem o mapa. Perguntou se eu trabalhava
“naquele lugar da esquina” e eu disse que hoje eu não trabalhava em lugar
nenhum. Ele gostou da resposta. Eu gostei de ter uma resposta pronta. A gente
bebeu o segundo copo juntos, encostados na geladeira, e a conversa foi
exatamente do tamanho que esse tipo de conversa precisa ser: curta, quente, sem
passado.
— Quer um lugar mais
quieto? — ele disse, perto do meu ouvido.
Eu olhei a sala. A
Brittany dançava com um cara alto, rindo de verdade, a cabeça jogada para trás.
Ela me viu, levantou o copo e fez um sinal de “vai, eu tô bem”. Eu acreditei,
porque querer acreditar também é um jeito de ser eu.
— Quieto é relativo.
Ele riu. Eu fui.
O quarto era
emprestado, cama desfeita de outra pessoa, abajur torto. Beijo, mão, blusa, o
roteiro que o meu corpo recitava sem precisar da cabeça. Dylan era bonito,
educado o bastante para perguntar se podia, e eu disse que podia. Por alguns
minutos funcionou: pele, calor, a vaidade de ser desejada sem ter que explicar
a vida.
Depois o minuto virou
oco.
Eu fechei os olhos para
forçar a antiga mágica e só vi a cozinha da Lena, a mão da Deby, o banco da
praça, coisas que não tinham nada que estar num quarto emprestado. Abri de
novo. Dylan beijava o meu pescoço com capricho, e eu agradeci em silêncio por ele
ser decente, porque o problema não era ele. O problema era eu, acordada no meio
da própria fuga. Passei a mão no cabelo dele, mais para encerrar do que para
continuar, e senti uma pena pequena dos dois: dele, que tinha encontrado uma
festa; de mim, que tinha ido buscar uma versão que já não atendia pelo nome.
Eu estava ali e não
estava. O teto tinha uma mancha, o abajur zunia, e o prazer, quando veio, veio
pela metade, como música ouvida de outro cômodo. Eu esperei a antiga alegria,
aquele apagão gostoso em que o mundo sumia. O mundo não sumiu. Ficou sentado na
beira da cama, olhando, entediado comigo.
— Ei — Dylan murmurou,
sentindo a pausa. — Tá tudo bem?
— Tá. Eu só… já deu.
Ele piscou, sem raiva,
só confuso. Eu vesti a blusa com pressa de quem acorda no lugar errado. Não foi
bruto. Não foi grande. Foi pequeno e, por isso, pior: eu tinha ido buscar a
Michelle antiga e encontrado uma estranha usando a minha boca.
— Foi mal — eu disse,
já na porta.
— Relaxa. A festa
continua.
Continuei eu, descendo
a escada com o copo vazio e a certeza incômoda de que continuar era justamente
o problema. Passei pela sala como quem volta de uma viagem curta demais. Alguém
me chamou para dançar. Eu dancei meio compasso e saí no meio, porque o corpo já
tinha avisado o que a cabeça demorou a ouvir: aquilo não preenchia mais. Na
cozinha, servi água em vez de outro drink e fiquei um minuto olhando o meu
próprio reflexo na porta do micro-ondas, borrado, com o batom comido. A
Michelle de sempre não estava ali. Tinha ficado no quarto, junto com a blusa no
chão, e nem ela tinha gostado da visita.
Na sala, a música
parecia mais alta. Eu procurei a Brittany para rir da minha própria peça
fracassada e não achei o cabelo dela em lugar nenhum. Olhei o sofá, a varanda,
o círculo da pista. Perguntei a duas pessoas. Uma disse que tinha visto ela
rindo. Outra deu de ombros. O atraso foi pequeno e, mesmo assim, o estômago
entendeu antes de mim.
Perguntei a uma menina
no corredor. Ela apontou com o queixo para o fundo da casa, onde um cara alto —
Blake, alguém tinha dito o nome perto da geladeira — tinha sumido com a minha
amiga fazia um tempo. “Eles foram conversar.” Conversar, naquela casa, era uma
palavra com porta.
O corredor dos fundos
era mais escuro e cheirava a cerveja derramada. Eu passei por um casal que nem
levantou a cabeça, por uma porta de onde saía risada, por outra de onde não
saía nada. Chamei o nome da Brittany baixinho, depois mais alto, e odiei o quanto
a minha voz parecia mãe de alguém. A festa, dali, já não era festa. Era casa
grande demais, com canto demais, e a minha amiga em um deles.
Eu andei. A primeira
porta era banheiro. A segunda, um quarto de casaco. A terceira estava
encostada, não trancada, e de dentro vinha a voz da Brittany, mais fina do que
eu conhecia.
— Eu falei que não.
Blake, para.
Ele riu, baixo, daquele
riso que finge que o não é charme.
— Você veio até aqui.
Relaxa. Só mais um pouco.
Eu empurrei a porta.
A Brittany estava
sentada na beira da cama, blusa fora do lugar, uma alça caída, o pulso preso na
mão dele. O rosto dela não era o da cozinha. Era o rosto de quem percebeu tarde
demais o tamanho do quarto. Blake estava de pé, entre ela e a saída, camisa aberta,
calmo demais.
— A festa é lá fora —
eu disse.
Ele me olhou como se eu
fosse garçonete no meio do prato dele.
— Ela tá bem. A gente
tá conversando.
— Brittany.
Os olhos dela acharam
os meus. Ela puxou o pulso. Ele não soltou na hora. Segurou mais um segundo, o
segundo que transforma conversa em outra coisa, e eu atravessei o quarto sem
pensar em heroísmo, só em amiga.
— Solta.
— Calma, porra.
Ele soltou quando eu
peguei a mão dela, mais por surpresa do que por respeito. A Brittany levantou
torta. Ele segurou o meu braço, não com força de filme, com força de quem está
acostumado a ganhar o último não.
— Vocês duas tão
loucas. Ela queria.
— Eu falei não — a
Brittany disse, e a voz falhou no meio, e isso bastou.
Eu torci o braço para
fora, empurrei o ombro dele o suficiente para abrir caminho e puxei a Brittany
para o corredor. Ele veio atrás dois passos, xingando, chamando a gente de
frescura, de teaser, de nome feio. Uma prima apareceu no fim do corredor com o
copo na mão e a cara de quem não queria problema na casa dos pais. Blake parou
ali. Não parou porque entendeu. Parou porque tinha plateia.
A gente não ficou para
o debate.
Lá fora, a rua estava
comum demais para o tamanho do coração. A calçada cheirava a chuva velha e a
cigarro. A Brittany tremia. Eu ajeitei a alça da blusa dela com dedos que
também tremiam, e ficamos um tempo encostadas no muro, ouvindo a música abafada
como se a festa fosse de outra cidade. Um carro passou. Ninguém parou. Eu
agradeci por ninguém parar.
— Eu achei que era só
ficar — ela disse. — Ele era engraçado na cozinha. Falava alto, pagava drink,
me olhava como se eu fosse a melhor decisão da noite. Eu bebi... Eu fui. No
quarto, quando eu quis a blusa de volta, ele riu. Quando eu quis a porta, ele
ficou na frente. Eu falei não mais de uma vez, Michelle. Ele disse que eu
estava confusa.
— Você não estava.
— Eu sei. Agora eu sei.
Na hora, eu fiquei com vergonha de gritar, como se o grito fosse eu exagerando.
Ela riu um riso
quebrado e chorou em seguida, sem produção. Eu abracei. O cabelo dela cheirava
a perfume e a medo. Nenhuma das duas fez discurso. A lição ficou sentada no
meio-fio, quieta e grande: a noite que antes era liberdade tinha cobrado, e a
cobrança quase tinha sido ela. Eu pensei no quarto de cima, no Dylan educado,
no meu próprio vazio, e entendi que as duas cenas não eram a mesma — uma eu
tinha podido sair, a outra ela quase não pôde — e mesmo assim as duas me diziam
a mesma coisa sobre a festa: eu já não cabia ali do jeito antigo, e a Brittany
não devia ter que caber à força.
— A gente vai pra casa
— eu disse. — Minha ou sua. Juntas.
— Sua fica mais perto.
A Lena vai me odiar.
— A Lena vai te dar
água. Odeio é comigo.
No táxi, a Brittany
encostou a cabeça no vidro e segurou a minha mão até a porta. Eu mandei
mensagem para a Lena: “tô voltando, a Brittany vem junto, está tudo bem.”
Mentira educada no “tudo”, verdade no “voltando”.
Lena abriu a porta de
robe, viu as duas caras e não perguntou o enredo. Perguntou se alguém estava
machucada. A Brittany negou com a cabeça. Eu também. Lena pôs água na mesa, um
cobertor no sofá e foi deitar a Deby de novo, porque a campainha tinha acordado
a casa. Antes de sumir no corredor, ela segurou o meu pulso um segundo.
— Obrigada por voltar.
Eu não soube responder.
Assenti.
A Brittany dormiu no
sofá ainda de maquiagem, a respiração aos poucos ficando de gente salva. Antes
de apagar de vez, ela segurou a minha mão por cima do cobertor.
— A gente tá bem, né?
— Tá. Assustada e bem.
As duas coisas cabem.
— Desculpa ter te
chamado pra ser você.
— Você me chamou pra
festa. Quem decidiu que eu ainda era aquela fui eu. E quem te tirou de lá
também fui eu. Então a noite não foi só perda.
Ela fechou os olhos
nesse saldo torto, que mesmo assim era saldo. Eu fiquei mais um pouco no chão,
ao lado do sofá, até o sono dela firmar. Depois fui para o quarto, tirei o
casaco, esvaziei o bolso da calça em cima da cama. Chave, batom, um recibo
amassado e o anúncio de medicina, dobrado nas mesmas marcas de antes.
Medicina. Data. Taxa. O
jaleco sorrindo para uma vida que não tinha cabido naquela festa.
Eu abri o papel. Li de
novo. Não preenchi nada. Não rasguei. Guardei na gaveta, debaixo de uma
camiseta, como quem esconde uma pergunta para não ter que responder de
madrugada.
O Ren não estava em
lugar nenhum daquela noite, e mesmo assim o papel dele tinha sobrevivido ao
quarto, ao não, à rua. Eu deitei sem apagar a luz toda. Do sofá vinha o sono da
Brittany, irregular e vivo. Eu fiquei olhando o teto — outro teto, o meu emprestado
— e entendi, sem frase bonita, que eu já não era a menina que a festa pedia.
Ninguém me avisou que
festa de amiga também cobra. A gente saiu inteira. Isso, naquela madrugada,
teve que bastar.