Temporada 1 · Episódio 1
Episódio 1 - Ninguém me avisou que a queda doía tanto
— Esse maldito alarme de novo!
— Desliga! — falava Joshua, o cara de hoje.
— Poderia fazer o favor de calar a boca? Se a Lena nos ver aqui ela vai…
A porta abriu antes que eu terminasse a ameaça, porque o universo tem um senso de humor péssimo e sempre chega na hora certa pra me ferrar.
— Michelle, você tem que ir…
Falava Lena, já de pé no batente, cabelo preso, cara de quem não dormiu o suficiente e ainda assim arruma a vida dos outros, me avisando no tom seco de sempre que eu tinha de ir para o meu emprego super chato.
— E você também! — isso ela falava olhando para o Joshua, aquele pedaço de homem incrível, musculoso, moreno e… deixa pra lá.
Joshua vestiu-se em silêncio, quase cômico de tão rápido, e saiu super envergonhado, sem beijo, sem “te ligo”, sem promessa, porque ele já sabia o que era — e eu também. Namorado de hoje; amanhã seria outro nome, outro perfume barato grudado no travesseiro — no travesseiro dela, na verdade. Eu fiquei olhando a porta fechar e pensei, com uma honestidade preguiçosa, que aquilo já tinha virado rotina, quase um ritual, quase um vício sem nome bonito.
Logo em seguida fiz o favor de vestir aquela roupa ridícula do emprego, um uniforme que aperta no lugar errado e larga no lugar pior. Eu trabalho numa lanchonete — já já eu conto o quanto isso é chato —, mas enfim: depois daquele incidente eu desci para tomar café e lá estava Lena com uma cara de matar qualquer um, o que não era pra menos, já que eu morava ali de favor desde que fugi da casa da minha mãe… bom, “fugir” é meio um modo de falar, porque eu simplesmente saí. Dormir com um cara na casa dela não era exatamente agradável, mas ela já deveria estar acostumada, afinal eu faço isso quase todos os dias — e talvez o problema seja exatamente esse: quase todos os dias, com caras diferentes.
A cozinha cheirava a café passado e pão de forma; Deby ainda não estava, só nós duas e o barulho da geladeira.
— Olha, Lena, eu prometo que eu não vou fazer mais e…
— Esquece. Eu sei que você vai fazer de novo. Mas, Chelle, por favor… vê se faz menos barulho.
Confesso que fiquei meio envergonhada com o comentário por dentro, mas por fora só encolhi os ombros e sorri de canto, porque qual é, eu faço barulho nessas horas — tem algum problema?
— Quando você voltar do trabalho, não esquece de pegar a Deby na escola e trazer pra cá, ok? Ela vai ficar aqui hoje à tarde.
— Tudo bem.
Falei fácil demais. Débora — a quem ela chamava de Deby — era a filha dela, uma criança que passava a maior parte do tempo com o pai, mas vez ou outra ficava por aqui. Lena era separada fazia uns dois anos e, depois disso, nunca arranjou mais nada, embora eu apresentasse uns caras pra ela; ela nunca quis, vai entender.
— Sério, Michelle — Lena insistiu, mais baixo. — Hoje é importante.
— Eu disse que tá bem.
Peguei a mochila, o fone e a bike encostada no corredor. Do lado de fora a manhã ainda estava crua — céu lavado, calçada úmida de orvalho, cheiro de ônibus e pão de padaria —, então coloquei a playlist alta o bastante pra não ouvir o meu próprio cérebro e saí pedalando rumo ao meu “maravilhoso” emprego.
Eu trabalho de garçonete na Drink’s House 23, não me perguntem o porquê desse nome, e o letreiro ainda pisca errado numa das letras como se também estivesse de ressaca. Fico lá das sete da manhã até as onze e odeio trabalhar, mas como vivo de favor na casa da Lena é justo que eu ajude em alguma coisa, pelo menos na comida — e, claro, preciso comprar umas roupas, afinal tenho que ficar linda pras festas e pros meus garotos.
A campainha da porta soou quando eu entrei, trazendo o cheiro de gordura, café queimado e álcool de limpeza barato. Glória já estava no caixa, maquiagem perfeita e humor nenhum.
— Chegou cedo hoje, Mi?
Era o Derick: ruivo, avental torto, sorriso de quem acha que “bom dia” é flerte.
— Já falei pra você não me chamar assim.
Ele ergueu as mãos fingindo rendição. Meu companheiro de trabalho, o garçom número dois, vivia na minha cola sem que eu entendesse direito o motivo: fazia questão de falar comigo sempre que podia, me fazia favores, enfim… um grude. Eu até acharia que ele estava afim de mim, mas nunca teve coragem de sequer me abraçar, e ainda bem — não que ele seja feio, é um carinha da minha altura, ruivo, olhos azuis e até fortinho, mas cara, garçom não rola.
— Ela chegou e já veio brava — disse uma voz atrás do balcão. — Que novidade.
Brittany. Nome comprido demais pra crachá de lanchonete, americana até na assinatura, e a única pessoa naquele lugar que conseguia me fazer rir sem pedir nada em troca. Cabelo cacheado preso num coque preguiçoso, brinco grande demais pro uniforme, batom que Glória odiava e ela usava mesmo assim: a gente não era “melhores amigas” de novela, a gente era pior — cúmplices de intervalo, fofoca e ódio compartilhado por cliente.
— Não tô brava. Tô só… acordada. Que é pior.
Brittany estendeu um café pra mim por baixo do balcão, como contrabando.
— Toma. Antes que a Glória transforme a gente em sorriso de outdoor.
— Vocês duas, menos conversa, mais bandeja — Glória cortou, sem nem olhar.
Brittany fez uma careta pra mim e eu retribuí, pequena vitória do turno.
O expediente escorreu do jeito que sempre escorre — pedido errado, mesa suja, homem de terno pedindo “um sorriso junto” como se fosse combo —, e eu servi, ri pela metade, imaginei jogar o suco na cara dele e não joguei. Quando derrubei um copo, Derick cobriu a mesa e se ajoelhou pra juntar o vidro.
— Relaxa — ele murmurou. — Eu pego.
— Eu não pedi.
— Eu sei.
Odiei dever aquilo a ele, e odiei ainda mais o jeito dele olhar como se eu fosse um problema bonito demais pra deixar cair.
No intervalo, Brittany me puxou pro fundo, perto da câmara fria.
— E aí? O moreno de ontem… ficou?
— Saiu correndo. Como todo mundo com senso.
Ela riu baixo.
— Um dia você vai cansar dessa coleção.
— Um dia você vai cansar de dar conselho.
— Nunca. É meu hobby.
Brittany me cutucou com o cotovelo.
— Sábado tem um bar novo perto do porto. Se você não sumir com mais um “namorado de hoje”, a gente vai. Só nós. Sem homem. Sem drama.
— Sem drama não existe no meu contrato — eu disse, embora por dentro tenha gostado do convite e dela fingindo que eu era alguém fácil de salvar.
— Você vai buscar a Deby depois? — Derick perguntou, do nada, quando eu tirava o avental no fim do turno.
— Como você sabe disso?
— Você falou ontem. Ou murmurando. Ou… sei lá. Você fala sozinha às vezes.
Sorri de lado, daquele jeito que eu uso pra encerrar assunto.
— Cuida da sua vida, ruivo.
— Ei — Brittany gritou da porta da cozinha. — Não esquece da menina, Michelle. Sério.
— Eu não vou esquecer.
Mentira dita com a boca limpa.
Saí sob um sol alto demais pra alguém que tinha dormido pouco e bebido ontem, ainda com tempo de sobra pra escola da Deby, combinado, responsabilidade e todo aquele bla-bla-bla. Na minha cabeça ainda cabia um banho, uma música alta, talvez um cigarro na calçada, e eu me sentia leve daquele jeito perigoso — o leve de quem acha que o dia é só cenário.
Na esquina da Drink’s House tinha um cara encostado num carro escuro, mexendo no celular como se o mundo girasse no horário dele. Quando ergueu o olhar, me olhou do jeito que eu gosto: direto, sem pedir licença.
— Você trabalha ali? — apontou com o queixo pro letreiro torto da lanchonete.
— Infelizmente.
Ele riu, mostrando dente bonito, camiseta justa e aquele cheiro de perfume caro misturado com cigarro. Não era Joshua, e não precisava ser, porque Joshua já tinha cumprido a função dele — provar que amanhecer com alguém na cama era só mais uma terça-feira na minha vida.
— Eu sou o Tyler.
— Michelle.
— Michelle da bicicleta e do uniforme ridículo?
— Michelle que agora vai embora.
Eu não fui, claro que não fui.
A gente conversou cinco minutos que viraram quinze, e quinze que viraram “só um café”. Ele falava pouco e olhava muito, do tipo que deixa você se exibir sem perceber, e eu ri do emprego, do avental e da minha própria vida como se fosse uma piada boa. Brittany mandou mensagem dizendo “não esquece a Deby”; eu vi o aviso piscar na tela e virei o celular de bruços, como quem desliga um alarme chato.
O café virou o apartamento dele — pequeno, bagunçado, cheirando a homem e a noite reaquecida —, com cortina fechada e música baixa demais pra ter letra. Eu sabia o caminho, sempre sei o caminho: beijo, mão na cintura, roupa no chão, aquele silêncio gostoso entre um barulho e outro. O corpo resolve quando a cabeça não quer pensar, e a minha, naquele momento, não queria pensar em escola, em Deby, em Lena, em promessa; queria só o agora, essa droga barata que funciona rápido e depois cobra.
Quando olhei o celular de novo, o mundo já tinha virado outro: três ligações perdidas da Lena, duas mensagens — uma delas só com o nome Deby — e um “???” da Brittany.
— Merda.
Vesti a roupa torta, ignorei o “fica mais um pouco” do Tyler — porque namorado de tarde também expira — e saí quase caindo da escada, com a bike parecendo lenta demais e o peito acelerado demais. Na escola, o portão já estava no modo “acabou, gente”, e uma funcionária me olhou com cara de quem já viu demais esse tipo de atraso.
— Débora? A mãe já levou.
A mãe já levou.
Eu fiquei ali um segundo engolindo a frase como se ela fosse areia, depois empurrei a bike de volta pra rua com a cabeça barulhenta e a vergonha subindo quente pelo pescoço — e foi aí que o mundo resolveu tropeçar em mim, literalmente.
Uma bicicleta veio no sentido contrário, rápida demais pra calçada estreita; eu desviei tarde, guidão bateu em guidão, o metal cantou e eu quase caí. Ele segurou o próprio peso com um pé no chão e ainda esticou a mão por reflexo, como se fosse me segurar também.
— Nossa — ele disse, ofegante. — Desculpa. Eu… acharia que ninguém vinha nessa direção.
Feições asiáticas, olhos escuros puxados no canto com uma calma que não combinava com o tombo, cabelo preto curto bagunçado pelo vento e um moletom simples: nada de pose, nada de perfume caro, só um carinha de bike meio sem jeito e educado demais pra rua daquela hora.
— Relaxa — eu respondi, ajeitando a bolsa. — Eu que tava andando como se o mundo me devesse passagem.
Ele deu um sorriso pequeno, daqueles que não pedem nada.
— Você tá bem?
— Melhor que minha tarde.
Ele riu baixo, quase sem som, e por um segundo a gente ficou ali — duas bikes tortas, o sol batendo no asfalto quente, um carro buzinando longe, uma folha grudada no meu tênis —, sem nome, sem “prazer”, só o quase-tombo e aquele silêncio educado demais pra cidade.
— Você… parece atrasada pra alguma coisa — ele observou, sem invadir.
— Já atrasei. Agora tô só colecionando consequências.
— Isso parece cansativo.
— É o meu esporte.
Veio outro sorriso dele, curto, sem flerte barato e sem aquele “me passa o número” forçado: só presença, estranha o bastante pra eu notar e rápida o bastante pra eu empurrar pra longe.
— Vai com cuidado.
— Você também.
Ele partiu pra um lado e eu pro outro. A conversa inteira durou menos que um comercial ruim, sem apresentação e sem telefone, e ainda assim, enquanto eu pedalava, fiquei com aquela sensação idiota de que o impacto tinha sido maior que o guidão — sensação que ignorei na hora, porque eu sou boa em ignorar.
Repeti a frase da funcionária o caminho inteiro até em casa, como se fosse uma música ruim grudada: a mãe já levou. Quando abri a porta, Deby estava no sofá com um suco e um desenho, e Lena estava de pé na cozinha, bolsa ainda no ombro, chave na mão, olhar de sentença.
— Oi, tia Chelle! — Deby sorriu, inocente.
— Oi, princesa.
Minha voz saiu limpa, praticamente profissional.
— Vai pro quarto um minutinho, Deby — disse Lena. — A tia e eu vamos conversar.
A menina obedeceu e o corredor engoliu os passinhos dela, enquanto eu ficava ali de uniforme amarrotado, cheiro de Tyler ainda na pele, cara de quem pode explicar tudo e não vai.
— Eu… perdi a hora.
— Você não perdeu a hora, Michelle. Você escolheu outra coisa.
A voz dela não veio gritada: veio baixa, o que era pior, daquele jeito cansado de quem limpa a mesma bagunça toda semana.
— Eu te pedi uma coisa. Uma. Buscar minha filha. Eu tive que largar o trabalho no meio. Tive que sorrir pra coordenadora como se estivesse tudo bem. Você faz o que quer na minha casa — e eu aguento, porque… porque eu aguento. Mas Deby não é mais uma das suas noites. Deby não é ressaca. Deby não é “deixa pra lá”.
Eu escutei e assenti uma vez, aceitando no fundo que ela tinha razão. A culpa veio quente, chata, íntima, e eu não deixei aparecer: não baixei o olhar tempo demais, não chorei, não fiz o teatro de quem se redime em trinta segundos — só fiquei ali, dura, com a mandíbula travada, como se estivesse aguentando vento.
— Tá. Você tá certa.
Lena piscou, surpresa com a facilidade; ela esperava briga, e eu também, talvez.
— Michelle…
— Não precisa continuar o sermão. Eu entendi. E olha… obrigada pelo teto, pela comida, por tudo. De verdade. Mas eu acho melhor eu ir.
— Ir pra onde?
— Não sei. Longe o bastante. Eu não volto mais.
Falei isso no tom de quem pede a conta, sem tremor e sem pedido de colo, e peguei a mochila que ainda estava no ombro como se a decisão tivesse nascido pronta.
Lena soltou um ar pelo nariz — um riso sem humor.
— Claro. Como fez com a sua mãe.
A frase bateu fundo, mas eu não respondi nem dei o gosto: só virei o rosto, abri a porta e saí antes que a casa inteira virasse um tribunal.
— Tia Chelle? — Deby chamou de longe.
Eu não voltei.
A rua recebeu meu passo rápido sob um céu de fim de tarde já carregado daquela cor suja de tempestade. Andei sem destino até achar um bar qualquer com luz amarela, porta pesada e cheiro de cerveja velha; entrei, pedi dose, depois outra, e a terceira veio sem eu precisar pedir direito, porque o bartender já tinha entendido o tipo.
A música estava alta e baixa demais ao mesmo tempo, as conversas grudavam umas nas outras e o copo suava na minha mão. Em algum momento o álcool fez o favor de embassar tudo — luzes virando manchas, rostos sem contorno, chão mais longe —, deixando a vista embassada, o pensamento lento e o coração idiota batendo fora de ritmo.
Brittany mandou mensagem, e Derick também, talvez; eu vi a tela acender, não consegui ler direito as letras, guardei o celular e pedi mais uma.
— Moça, você tá bem? — o bartender perguntou.
— Melhor impossível — eu menti, com um sorriso torto.
Em algum momento o bar ficou pequeno demais pra tanta coisa batendo no peito, então saí — e lá fora já chovia daquele jeito sem pedir licença, chuva grossa, rua brilhando, farol quebrando em pedaços em cima da água. Fiquei dois segundos debaixo da marquise e avancei mesmo assim, com o cabelo colando no rosto, a maquiagem escorrendo quente e fria ao mesmo tempo, a roupa grudando no corpo e o mundo inteiro balançando num desfoque molhado.
Ri primeiro, um riso idiota de quem só agora aperta o play e vê a própria bagunça em câmera lenta; depois o riso não segurou, e eu chorei ali na chuva, sem plateia e sem salvação cruzando a rua, só com o álcool no sangue, a vista embassada, a frase da Lena repetindo sem boca — claro, como fez com a sua mãe — e aquela vontade nojenta de sumir e, ao mesmo tempo, de ser encontrada por alguém que eu não merecia. Os faróis passavam, alguém buzinou, ninguém parou, e eu não liguei pra ninguém.
Cansada de ficar andando, decidi me sentar na calçada. Olhando para cima e chorando, com a maquiagem borrada e cabelos amarrotados, ficava a pensar por um instante, se era aquilo que eu queria para mim. Bom, agora era só que eu tenho.