Escritores
Nella Ferreira da Conceição
Graduação em História e Pedagogia. Psicopedagoga. Mestrado em Educação . Professora Universitária. Diretora de escola. Coordenadora do Livro "Olhares Plurais sobre o Meio Ambiente" - 2011; publicação de artigos em revistas sobre atividade de pesquisa acadêmica. Aposentada e com gosto pela escrita: 29 contos publicados em várias editoras. Romances publicados: "Tempo de Travessia" 2023/Caqui Literário; "Onde está o meu lugar" 2025/ Ipê das Letras
Textos publicados
Uma mudança de país pode indicar uma perda de identidade, pela ausência de referenciais, o que leva frequentemente a um estresse psicológico. Saí do Oceano Índico para ladear o Oceano Atlântico.
Sou uma imigrante, embora não tenha passado as terríveis provações dos refugiados que fugiram de seus países, incapazes de estancar a diáspora de seus cidadãos. Enfrentar uma nova cultura, banhada por um outro oceano, pode acabar sendo um desafio de forças a ser superado.
Depois que deixei as praias do oceano Índico, o Atlântico passou a dividir o meu coração. Não sou mais inteira. Preciso de um tempo no Atlântico de lá, onde passei vários anos cuidando da minha formação acadêmica. Mais tarde, ao descobrir o amor da minha vida, partimos para esse mesmo oceano, porém pelo lado de cá, onde agora resido. E nesse ir e vir, tornamo-nos pessoas diferentes. Ao vaguear por diferentes lugares, ao longo do tempo, acabamos por viver várias vidas. “De onde você é?”. Não sei de onde eu sou, só sei de onde eu vim! Embora eu não tenha sido uma refugiada, vivenciei a imigração.
Um casamento multicultural, com corações criados em contextos diferentes, exige uma maior dedicação de ambas as partes. Enfrentei um duplo desafio que trouxe um choque cultural com furacões internos a serem enfrentados, pelas ondas dos oceanos em conflito, pelo pavor de tudo o que se tornou terrivelmente diferente: eu era europeia e urbana, meu amor era sul americano e interiorano.
Ainda que as minhas sensações tivessem origem em outros estados de alma, sou sensível aos movimentos migratórios. Identifiquei-me quase como uma refugiada. O meu sofrimento surgia pela perda de bens materiais e de afetos; mas também pela perda da própria identidade e de referenciais de vida. Pedro havia esquecido a condição de mulher já emancipada de sua companheira. Valores intelectuais, hábitos e costumes de outra cultura eram ignorados no lugar para onde Pedro me levou. Ela desistiu dele.
As feridas abertas na alma exigem a sua superação, em troca da felicidade. São efeitos de uma situação traumatizante. Sentimentos de medo, insegurança e impotência perante projetos pessoais acabam paralisando e desintegrando as nossas forças. Precisamos reconstruí-las. Surgem cicatrizes, criando marcas eternas. Precisamos retirar as camadas que construímos para sermos aceitos. Se queremos voltar à nossa essência, poderemos ser mais felizes, trabalhando em nós o mais profundo da nossa alma.
Foi uma experiência cultural traumática. Recordo as minhas dores. Nem sempre estamos preparados para enfrentá-las. Vivi um sentimento de desconforto, um estranhamento de não ser eu mesma. Voltei a cumprir o papel de um outro personagem na vida. Quando algo não se acerta em nossa vida, a alma parece sair do corpo para vaguear pelas esferas de pensamento e da imaginação, buscando um lugar para descansar.
Nascemos, renascemos, nos despedimos para começar novas histórias. Será que algum dia paramos de renascer? As decisões parecem repentinas, mas nem sempre, provêm de um amadurecimento. Silenciosa, e inconscientemente, vamos nos reconstruindo com coragem, refazendo a nossa identidade na caminhada da vida. Situações difíceis ajudam a invocar as nossas qualidades, gerenciando com perspicácia a nossa identidade. Por isso, precisamos de coragem, de persistência e abertura ao novo. Precisamos ser resilientes para nos reinventarmos.
Quando enfrentamos o que nos assombra, criamos coragem para investir nos nossos sonhos, recriando projetos, reafirmando a família que construímos até chegarmos a encontrar um lugar que nos dê guarida. Um lugar que se pareça com a nossa alma.
Subitamente, me atraiu a voz do poeta Fernando Pessoa, em seus múltiplos pseudônimos: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos.”
Virar a página da vida é necessário, mas não temos nem a chave do tempo, nem a chave da vida. Consegui dar uma nova textura com novas cores ao meu universo emocional, firmando minha identidade de mulher e mãe. Nada é esquecido, mas superado.
Então, precisamos dizer adeus, aceitando novos mares e oceanos, em busca da felicidade. Preciso de um tempo deste lado do Atlântico, preciso de um tempo do outro lado do mesmo oceano. E nesse ir e vir, tornamo-nos pessoas diferentes. Se viajamos para lá é porque temos saudades, se retornamos para cá é porque, também, sentimos saudades!
Acompanhar o amor para tão longe me aquece como as águas quentes do Índico, onde fui criada, mas cresci e amadureci nas águas frias do Atlântico. Só preciso visitar meus lugares de encantamento, à beira do Índico, mas também dos outros lados do Atlântico. Sou dois “eus”, em um só corpo, dois pensamentos em uma só vontade, ligados na mesma emoção. Não sou daqui, nem dali, sou um pouco daqui e um pouco dali.
Saí em busca de outros lugares, tentava entender onde estaria, em cada momento, a minha vontade de ficar. Lutei em busca das próprias referências perdidas, buscando a minha nova identidade. Reencontrei-me pelo autoconhecimento, pelo resgate de minhas raízes africanas e europeias e pela própria reconstrução como mulher, mãe e profissional, sempre fazendo confluir quereres até à revelação do quem eu me tornei. Renasci no encontro de uma nova camada, a da múltipla identidade.
Cada pessoa expressa as suas emoções de forma pessoal, diferenciada, na profundidade e no limiar de proximidade em que cada um se coloca, perante o seu próprio imaginário sensível. Precisamos saber quem somos, de onde viemos e conhecer as raízes submersas em nossos mares emocionais. Redes digitais não encontram obstáculos, ultrapassando oceanos e continentes. Podem ajudar no ajuste do sentimento de pertencimento, maculado por múltiplas situações de enfrentamento.
Depois que as mãos se enrugam, observamos com mais atenção o nosso corpo, a nossa mente e as nossas emoções, fazendo os ajustes necessários. As cobranças diminuem. A culpa, o medo, a vergonha e o autojulgamento moderados são importantes para dar melhores respostas aos enigmas que rondam a ordem cósmica de nossas vidas.
Continuamos sendo imigrantes nas profundezas do nosso ser, mas no acerto final com quem construímos nossas vidas, podemos conseguir ajustes partilhados. E assim, sempre poderá existir uma alvorada nascida na orla da praia, contemplando a dois, o mar que nos dividia.