Escritores
Massanori Takaki
Escritor e roteirista, graduado pela UNICAMP, com pós-graduação pela UNIFESP, doutorado sanduíche na Universidade de Newcastle-upon-Tyne, Inglaterra, e dois pós-doutorados na Universidade de Wageningen, Holanda. Lecionou na UNESP. Tem Lato sensu em Cinema e Linguagem Audiovisual e em Jornalismo Digital pela UNESA.
Textos publicados
Nasci na cidade de Mirandópolis, na região noroeste de São Paulo, e em 1957 nos mudamos para Guarulhos, a mais de seiscentos quilômetros de distância. Tinha na época cinco anos de idade e, saindo de uma casa em uma rua de terra com quintal, fomos morar na parte superior de um sobrado. O horizonte mudou completamente, pois era possível ver a Serra da Cantareira, que em uma época do ano ficava com o verde manchado de spots cor-de-rosa e brancos das flores do manacá-da-serra — enquanto a nossa região de origem era plana e sem morros.
Meu pai era alfaiate, e a sala da nossa casa funcionava como oficina de costura; assim, por muitos anos nunca tivemos uma sala de estar característica das residências. Somos quatro irmãos, e os fins de semana eram reservados para ajudar os nossos pais na costura ou nos afazeres domésticos, como encerar o chão e manter o quarto arrumado. A casa tinha somente dois quartos: nós, os quatro irmãos, dormíamos em um deles, e os nossos pais, no outro.
As brincadeiras, antes realizadas no quintal, passaram a ser restritas à varanda, ao quarto, ao corredor e à área de serviço. Empinar pipa era uma das minhas brincadeiras prediletas. A linha estava sempre disponível na alfaiataria, e eu já tinha prática para montar a capucheta, a pipa feita de papel de jornal e sem varetas. A minha outra especialidade era construir uma raia, um tipo de pipa sem rabiola cujo papel de seda vinha dos cadernos de desenho, que antigamente eram colocados antes de cada folha de sulfite. A cola era o gohan, arroz cozido dos japoneses sem temperos e sem óleo.
Não tínhamos televisão em casa, então eu ia assistir aos programas na quitanda que ficava na parte inferior do sobrado, logo em frente. Assistia aos seriados de Flash Gordon ou a algum programa infantil de auditório.
A rotina mudou completamente com a ida para a cidade grande. Nas ruas de pedras em formato de paralelepípedo, o som ao nosso redor se transformou; a avenida em frente era o caminho dos ônibus, e o barulho frequente preenchia a nossa casa, misturando-se ao ruído das máquinas de costura dos nossos pais.
Ir à escola a pé, caminhando vários quarteirões, dava uma certa independência a uma criança de sete anos de idade — ato impensável nos dias atuais em uma cidade grande.
Depois do vestibular, fui morar em Campinas, outra cidade do interior de São Paulo. À época, o município era grande, mas não como hoje em dia, e era possível caminhar depois da meia-noite pelas ruas ao retornar para casa após estudar na casa das amigas da faculdade, já que nesse horário os ônibus não circulavam mais. Após quatro anos, voltei para a casa dos meus pais, parti para realizar a pós-graduação e morar na capital paulista. Dois anos depois, passei um ano na Inglaterra para fazer um doutorado sanduíche na Universidade de Newcastle upon Tyne. Terminado esse período, fui morar no Recife — outras experiências incríveis, com hábitos e costumes diferentes. Três anos depois, voltei para o interior de São Paulo, especificamente para Rio Claro, onde morei por trinta e cinco anos.
Há oito anos moro na cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul, outra região com costumes e hábitos próprios. As minhas moradas em lugares diferentes me mostraram como o nosso Brasil é enorme, com características regionais distintas, e como essa riqueza cultural, feita de costumes e sotaques diversos, deve ser cultuada.