Escritores
Marcos Roberto Machado
Marcos Roberto Machado é professor de Língua Portuguesa e Língua Francesa, mestre em Estudos Linguísticos e doutor em Letras. Atua na educação pública do estado do Espírito Santo, na área de Língua Portuguesa, e no ensino de francês, no Núcleo de Línguas da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). É autor dos livros Somos Capixabas: identidade, representação e pertencimento e É sempre outono em Dublin, além de artigos acadêmicos e textos publicados em coletâneas.
Textos publicados
1h30 Desde que deixara a rodoviária, Pedro caminhava pelas ruas do Centro de Vitória com a sensação incômoda de que havia alguma coisa atrás dele. Não uma pessoa, exatamente. Talvez fosse apenas o cansaço, ele pensou. Estava viajando desde o final da tarde, não havia dormido direito na noite anterior e, nas últimas horas, sua vida parecera se desfazer numa sucessão de acontecimentos que ele ainda não conseguia organizar em sua mente. Não olhava para trás. As ruas estavam praticamente vazias naquele horário. Era 23 de setembro de 2002, embora Pedro ainda carregasse no corpo o dia anterior como se ele não tivesse terminado. O casamento, a igreja, as flores, o vestido branco, as famílias reunidas, o terno que sua mãe escolhera. E depois, o motel. Aquele maldito motel. Fechou os olhos por um instante enquanto caminhava. Ainda conseguia ouvir os gritos! A noiva havia chegado antes que ele pudesse entender o que estava acontecendo. A porta aberta, a cama desarrumada, seu corpo nu entre os lençóis e, ao seu lado, uma lingerie vermelha, que ele jurava não saber de onde viera. Gritos. Pessoas. Olhares. Julgamentos. Não tentou explicar, nem ele mesmo sabia o que havia acontecido. Pedro não se lembrava de ter ido até aquele quarto. Não se lembrava de ter conhecido a possível dona daquela peça íntima. Seu pai não dissera nada, mas seu olhar gritava. Sua mãe chorara. A mãe da noiva o chamara de desgraçado e um dos irmãos dela jurou que aquela história não terminaria ali. Pedro não quis esperar para descobrir qual seria o desfecho, pegou o primeiro ônibus para Vitória. Agora caminhava sozinho pelas ruas calmas da Cidade Alta. Tinha dezenove anos e, até a tarde daquele dia, acreditava que sua vida estava praticamente decidida. Era técnico em Zootecnia, recém-formado, filho de comerciantes e um futuro garantido como dono da loja de produtos agropecuários da família. Tinha 1,75 metros, setenta e cinco quilos e ouvira tantas vezes que era bonito que acabou incorporando aquela certeza. Gostava de namorar, gostava de mulheres. Gostava da sensação de ser desejado. Ou pelo menos era isso que sabia dizer sobre si mesmo. Naquela noite, porém, nada parecia tão certo. A cidade grande lhe dava uma vantagem que sua pequena cidade jamais poderia oferecer: ali ninguém o conhecia. Ninguém sabia do casamento desfeito, do motel, da lingerie vermelha, dos comentários que provavelmente já percorriam as ruas da cidade onde crescera. Talvez pudesse simplesmente desaparecer entre milhares de pessoas e começar outra vida. Quando chegou à Praça Oito, reconheceu o relógio central. Levantou os olhos. 1h45 Parou por alguns segundos. O silêncio daquela parte da cidade era quase completo. Alguns poucos carros passavam pela avenida. As fachadas das lojas pareciam maiores do que durante o dia, e a iluminação amarelada e fraca dos postes deixava grandes áreas da praça mergulhadas numa penumbra que dificultava distinguir o que havia a poucos metros de distância. Foi então que Pedro viu a silhueta de uma mulher. Ela estava numa das extremidades da praça, próxima a um poste. Era jovem. Tinha os cabelos soltos e, mesmo com a pouca luz, ele pode notar que ela vestia apenas uma lingerie vermelha. Pedro parou, desconcertado. Sentiu o peito apertar.
A mulher parecia distraída, como se esperasse alguém. Talvez um conhecido. Talvez ninguém. Um carro passou devagar e buzinou. Ela não reagiu imediatamente, apenas ergueu os olhos, acompanhou o veículo com o olhar e voltou a encarar o nada. Pedro não sabia por que continuava olhando. Havia alguma coisa nela que o atraía, mas não era exatamente desejo. Era uma sensação mais estranha, quase desconfortável, como quando se reconhece uma pessoa vista muitas vezes, embora não se consiga lembrar onde. Começou a caminhar em sua direção. Quanto mais se aproximava, mais aquela impressão aumentava. A mulher também o observou. Pedro teve a sensação de que ela o reconhecera. Parou a alguns passos dela. — Você está bem? Ela não respondeu. Apenas o encarou. Pedro sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo todo. — Eu conheço você? A pergunta saiu antes que pudesse pensar. A mulher sorriu discretamente. Não era um sorriso de sedução, parecia mais uma espécie de surpresa. — Conhece! — disse ela. A voz era baixa, mas o suficiente para deixar Pedro imóvel. Havia alguma coisa familiar naquele timbre, embora ele não conseguisse identificar exatamente o quê. — De onde? Ela inclinou ligeiramente a cabeça. — Você não se lembra? Pedro tentou responder, mas nenhuma palavra lhe veio à mente. A mulher aproximou-se. Agora estavam tão perto que ele conseguia perceber os detalhes do rosto dela. Os olhos, a boca, o pequeno sinal próximo ao queixo. Pedro levou à mão ao seu rosto e deslizou os dedos no sinal que tinha no mesmo local. Coincidência? Antes mesmo que pudesse conceber uma resposta possível, sentiu uma vertigem. O rosto daquela mulher parecia mudar. Não diante de seus olhos, de maneira sobrenatural. Era mais parecido com uma lembrança que se sobrepõe à outra. Por um instante, ele viu o rosto dela; no instante seguinte, parecia enxergar o próprio rosto. Piscou desesperadamente. Ela continuava ali. Talvez o cansaço da viagem e o estresse dos acontecimentos estavam deixando-o louco. Talvez ainda estivesse preso ao quarto do motel. — Você estava lá — murmurou, com os olhos fixos na lingerie vermelha. A mulher não respondeu. Pedro sentiu o coração acelerar. — No motel. Ela baixou os olhos. Por um instante, pareceu constrangida. Depois voltou a encará-lo. — Eu estava. Pedro deu um passo para trás. — Mas quem é você? A mulher não respondeu. Pedro olhou ao redor, procurando alguma coisa que pudesse devolver àquela situação uma aparência de normalidade. A praça, porém, continuava vazia. O relógio marcava a passagem
do tempo. Quando ele voltou a olhar para a mulher, alguma coisa havia mudado. Não nela, mas nele. Pedro sentia o próprio corpo estranho. As pernas pareciam mais leves, o cabelo tocava-lhe a nuca de maneira diferente. Havia uma sensação incômoda na pele, como se estivesse usando uma roupa que não lhe pertencesse. Olhou para baixo. Por um instante, teve a impressão de ver duas sombras projetadas no chão. Uma ao lado da outra. Uma masculina e outra feminina. Mas, quando piscou, as sombras pareciam formar apenas uma. A moça aproximou-se mais. Pedro não recuou. Os dois ficaram frente a frente. Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela. A pele era quente, a mulher fechou os olhos. Pedro também. Durante alguns segundos, não houve mais praça, nem relógio, nem avenida. Havia apenas aquela sensação absurda de estar tocando o próprio rosto e, ao mesmo tempo, o rosto de outra pessoa. Então, os dois abriram os olhos ao mesmo tempo. O cabelo da mulher roçou seu pescoço. Pedro sentiu o mesmo perfume que sentira no motel. A mesma fragrância que havia tentado lembrar durante toda a noite sem conseguir. A mulher sussurrou alguma coisa, mas Pedro não entendeu. Por um instante, teve a impressão de que os dois corpos se aproximavam até que já não houvesse distância suficiente entre eles para distingui-los. O vermelho da lingerie parecia se espalhar pelo campo de visão, como uma mancha de tinta na água. Pedro fechou os olhos. Quando tornou a abri-los, já não havia duas pessoas. Havia uma só, apenas ele, a mulher desaparecera. Um carro passou, um homem surgiu ao longe, atravessando a rua. O relógio continuava lá: 1h50. Pedro tentou lembrar o próprio nome. Demorou alguns segundos. — Pedro — disse finalmente. A voz que saiu, entretanto, não parecia inteiramente sua. Ele levou a mão à garganta. Sentiu uma espécie de riso nascer dentro do peito, mas não sabia se estava rindo ou chorando. Vários pensamentos explodiram em sua cabeça: a noiva, o pai, a mãe, o quarto do motel, a lingerie, a mulher... Então percebeu que não conseguia mais separar as lembranças. Quem estivera naquele quarto com ele? Tudo parecia se misturar agora, como se fossem partes de uma mesma lembrança contada por pessoas diferentes. Ele voltou os olhos para o relógio. Sorriu. Por alguns segundos, permaneceu imóvel, olhando para a própria sombra projetada no chão. Havia nela alguma coisa que parecia feminina, mas, sob a luz irregular do poste, era impossível ter certeza. Depois começou a caminhar. Não sabia para onde. Também não sabia mais se fugia de alguma coisa ou se, finalmente, caminhava em direção a ela. Sem ele, a Praça Oito voltou a ficar vazia. O relógio continuou avançando. E, naquela madrugada de 23 de setembro, ninguém poderia dizer ao certo quem havia chegado a Vitória. 1h55. A primavera começava no hemisfério sul.