Escritores
Juãn Machado de Lemos
Moro no Rio Grande, mas sou natural de São José do Norte - RS. Sou graduando no curso de Licenciatura em Letras - Português e Inglês na Universidade Federal de Rio Grande (FURG). Faço parte do grupo de pesquisa CILIGA (Cinéfilos, Literatos e Gamers) que discute conceitos teóricos sobre mídia, comparação e dimensões midiáticas. Minha pesquisa ancora-se nos postulados de Gaston Bachelard sobre a imaginação poética e o devaneio, que utilizo como lente para analisar diferentes narrativas midiáticas.
Textos publicados
De repente você acorda no meio da madrugada com uma coceira pungente. É estranho, repentino e dói na vulnerabilidade. Você não sabe qual é a causa, embora exista uma nebulosa suspeita. Ainda que tivesse a resposta desse mistério noturno, você só conseguiria fazer uma coisa: coçar.
A sensação de derrota pulsa. A irritação, no interior, em intervalos constantes de 5 segundos, envenena qualquer perspectiva de sossego que você pensou que ainda poderia ter. O prurido incomoda. .. incomoda. .. incomoda. .. e não passa. Você projeta seus últimos dias no teto escuro do quarto enquanto busca por motivos e se pergunta: “onde foi que eu errei? O que foi que eu fiz? ” O caminho banal entre o quarto e o banheiro se torna uma rota de peregrinação. Cada ida renova a esperança de uma salvação, um milagre que sane seu sofrimento lazarento; cada retorno, um novo atestado de que, se deus existe, ele o despreza firmemente. O sono, remédio comum aos males humanos, é negado como um beijo de lábios que se aproximam, carnudos, vermelhos, quentes, úmidos e ausentes. Você se aproxima com o ímpeto de uma paixão extraída do mais romântico romantismo, tentando consumar o atoque ardentemente almeja, mas sempre a um fio de distância tais lábios permanecem.
Coçam-se as semanas. A aflição, como um ladino sádico e paciente, desaparece duranteos dias, mas ataca sorrateiramente na calada das noites. Sua agressão, no entanto, é longe de ser rápida e fatal – são golpes microscópicos que ferem corpo e desregulam a alma. Transformado compulsoriamente neste ser notívago noite após noite, dia após diavocê se sente menos humano. A comida já não parece tão saborosa, a leitura deixa de sertão prazerosa, não há momento que não seja permeado por uma angústia subjacente.
Médicos são contatados e exames são feitos, mas agora é tarde demais, o tratamento deveria ter começado há muito tempo. O desassossego se expandiu de você para pessoas próximas. Diferentemente desta companheira perniciosa, elas vão embora e não voltamna noite seguinte. Agora não é apenas o sono que se ausenta, mas também, o carinho, o calor, a vontade de sair da cama – a cama que lhe nega sua função fundamental.
Constantemente em chamas, sua cólera o domina. A mente turva de vapor chega a sua conclusão final para todas as feridas: abraçar a mudança e aceitar a imolação. Assim, com um sopro, a coceira se desfaz em uma densa névoa cálida. Assim, com um beijo, o repouso te conforta indefinidamente.