Escritores
Débora Camila Brasil
Nasci em Belém (PA) e fui criada em Brasília (DF). Sou servidora pública federal, escritora e taróloga. Atuo na literatura transitando entre poesia, microconto, conto, crônica e literatura infantil, explorando temas como memória, afeto, espiritualidade e os mistérios da experiência humana. Em 2026, integro mais de cem antologias literárias, com participações em obras lançadas na FLIP e na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, além de colaborar com coletivos literários e revistas digitais.
Textos publicados
Ninguém sabia exatamente o que acontecia depois daquela porta. Apenas que ninguém saía carregando a mesma versão de si. O edifício parecia novo demais para ser confiável. Linhas retas. Luz fria. Uma recepção sem ruído. Tudo nele sugeria ordem. Havia, porém, falhas sutis nessa ordem, como se o próprio espaço deixasse de obedecer à sua geometria. Corredores que se estendiam um segundo a mais do que deveriam. Portas que hesitavam antes de existir. Ela percebeu isso ainda no saguão. O elevador subiu sem vibração. Ainda assim, algo nela chegou diferente ao sétimo andar. Não era vertigem.
Era ajuste, como se cada andar retirasse uma versão discreta de quem ela havia sido minutos antes. No sétimo piso, recebeu a chave. — Seu quarto — disse o funcionário, sem inflexão. O metal parecia mudar de peso na mão. O número mudava conforme a luz: 208. 209. 210. Até fixar, decidindo entre colaborar ou não. O corredor não era exatamente torto, mas também não era confiável. As portas não estavam fora de lugar. Era o próprio lugar que havia sido deslocado entre elas. Algumas próximas demais para o espaço que ocupavam. Outras afastadas, recusando continuidade.
Ela encontrou o quarto e a porta abriu sem resistência, como se já estivesse aberta antes de ela decidir entrar. Por dentro, tudo era comum demais. Isso foi o que a inquietou. Nada no quarto pedia atenção. Nenhum excesso. Nenhuma falha visível. Apenas a precisão silenciosa de algo que observa sem precisar se mover. Ela deixou a mala ao lado da cama e se sentou. O colchão demorou a aceitar o peso, confirmando quem ela era antes de sustentá-la. Antes de apagar a luz, abriu a bolsa e retirou uma fotografia antiga. Nela, uma mulher sorria com a mão apoiada em seu ombro. Havia naquela imagem uma intimidade que ela reconhecia antes de compreender.
Por um instante, quase lembrou o som daquela voz chamando seu nome. A lembrança veio incompleta, como uma palavra vista através de um vidro embaçado, e desapareceu antes que pudesse alcançá-la. Não olhou por muito tempo. Bastou conferir que os dois rostos continuavam no mesmo lugar e guardá-la novamente entre as páginas do livro que sempre levava consigo. Era um gesto repetido em cada viagem. Menos para lembrar daquela mulher do que para confirmar que ainda era a pessoa que a carregava. Despertou com a sensação de que algo havia sido reorganizado dentro do próprio nome. No banheiro, o espelho não devolvia atraso. Devolvia aprendizado.
A imagem estava quase certa, mas ainda não completamente decidida sobre ela. Levantou a mão. O reflexo hesitou um instante antes de obedecer. Na segunda noite, a hesitação diminuiu. Na terceira, desapareceu. O reflexo já não a seguia. Antecipava. Às vezes, corrigia. No quarto dia, havia um bilhete sob a porta. Sem assinatura: “Alguns quartos não hospedam pessoas. Apenas versões provisórias. ” Ela amassou o papel sem reler. Quando voltou ao espelho, entendeu que já havia perdido algo que não sabia nomear com precisão: o direito de coincidência consigo mesma. O reflexo não imitava mais. Testava a forma mais estável dela.
Na recepção, perguntou se podia trocar de quarto. O funcionário não desviou o olhar do sistema. — Qual é o problema? Ela demorou a responder. — Não sei se ainda estou. .. inteira. Silêncio breve. Técnico. — O edifício não trabalha com perda — disse ele. — Apenas com atualização. — Atualização de quê? Ele enfim levantou os olhos. — De versão. Naquela noite, o sono veio sem convite. Não como descanso, mas como substituição. Ao acordar, tudo parecia exatamente onde deveria estar. A mala permanecia ao lado da cama. Ela a abriu. As roupas eram suas, mas não eram as que havia trazido. O tecido tinha o mesmo cheiro, o mesmo desgaste, o mesmo corte.
Apenas não guardava nenhuma lembrança. Não conseguiu recordar em que dia comprara aquela camisa. Nem onde. Nem por quê. Revistou o restante da bagagem. O livro que costumava carregar continuava ali. Ao abri-lo, encontrou anotações escritas com sua letra. Não reconheceu nenhuma delas. Abriu a bolsa às pressas, retirou a carteira. O documento era legítimo: a fotografia mostrava seu rosto. O sorriso, porém, pertencia a alguém que ela não lembrava de ter sido. Voltou-se para o espelho. O reflexo já estava olhando para ela. Não sorriu, apenas esperou. Pela manhã, tentou sair. O corredor já não conduzia para fora. Conduzia a sutis diferenças.
Em uma porta, um quadro mudava de lugar. Em outra, o carpete tinha outra cor. Mais adiante, cruzou com uma mulher usando exatamente a roupa que ela lembrava ter trazido na mala. A mulher passou sem estranhamento. Era ela em uma versão que não deixava margem para dúvida. Seguiu caminhando e não olhou para trás. Foi então que percebeu que nenhuma daquelas mulheres parecia perdida. Apenas ela. Quando finalmente encontrou o elevador, apertou o botão do térreo. As portas se abriram. Do outro lado havia o saguão. O sofá. A recepção. O funcionário. Tudo exatamente onde a lembrança já não podia confirmar. Ela deu um passo.
Ele sorriu pela primeira vez. — Bem-vinda. Ela hesitou. — Eu já estava aqui. Ele inclinou discretamente a cabeça. — Não. Olhou para a chave entre os dedos. O número havia parado de mudar. Tentou lembrar qual era o número quando chegou. Não conseguiu. Nem o quarto. Nem o hotel. Nem o próprio nome.