Escritores
Arlison Frank
Arlison Frank é natural de Santa Helena, Maranhão. É mestre em Filosofia pela Universidade Federal do ABC e doutor em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Servidor público do Estado de São Paulo, atua como professor, pesquisador e escritor. É coautor dos romances Maia e a história atrás da capa (2019) e Uma vida comum (2026), além de autor de Cadernos de Notas e Ensino de Filosofia (2021).
Textos publicados
Hein hein! Estrudia, cumpade Jeová, esse piqueno contô uma história que fez eu pensá que dizê da gente pode ser involuntário. Um menino desses, letrado com livro bom e professora de cidade grande, aprumado mar’do que guará, se viu bestificado com um acontecido desses qualqué daqui, do mato. De primeira, o causo não faz sentido. Aí, fiquei bulindo as ideia, com vocação de invocado, penso que só tando fora do jogo mermo prum acontecido desses acontecê assim.
Escuta, sem mentira nenhuma, telça passada, de manhã cedim, cumpade nhô Reno levô Luís no mato pra tirá táuba. Nhô Reno preparô dois carro, um pr’ele e outro pro piqueno. Levô também dois bufa: o maió, enfezado quissó, ficô com nhô Reno; o menó e mar maneiro, ficô com Luís. Só que a motosserra ficô no carro de Luís. Agora bem aí, o siô qué vê, escuta o que acontece. Nem seis’ora da manhã, nhô Reno e Luís saíro. Levaro uma cabaça pra mode tomá água, umas caiambuca num cofo com jabiraca pra cumê e outras coisa, que não alembro. O siô sabe que num trabalho assim, o tempo vai se abrindo, de repente dá na cara do meio-dia, quando se pensa que não, chega o cair dos pano e o céu fica encruado.
Luís tá acostumado com cidade, era criança miúda quando saiu daqui. Agora aqui, tudo é espanto pr’ele. Magina o siô, o que não deve ser pr’ele levá um bufa. Dizend’ele que, no meio do caminho, quando ouviu um bufa rermungá pro outo, se assustô. Vi grassa e muita nisso, cumpade. O que tem de mais ne rermungo de bufa? Rimo quissó, e na graça, falei pra Luís que os bufa devia de tá se queixando de tê que trabalhá, porque trabalho é consumição de vida. Agente vévi trabalhando porque é o jeito, mas gostá mermo só tando doido. Eu tô é tu, né cumpade? Agente tem que sair de casa, de manhã cedo, pra se embrenhá a contragosto no meio dos mato. Ah... se fosse eu... humhum... ia rermungando o caminho todim também. Ainda marragora, depois de véi.
Lá por volta das dez, eles chegaro naquela travessia do rio do cento de Lazo, irmão de Ontonho. O siô deve de tá alembrado daquele rio depois das canarana que nem é muito incorpado. Marrapá, dizendo Luís que no dia ele tava com uma fundura medonha, parecia o Turiaçu. E Luís não sabe nadá, então já viu, né? Na merma hora, nhô Reno disse “põe a motosserra no ombro se o rio subir na mesa do carro”. E mais, pr’ele montá nas costa do bufa. Pense numa situação cabulosa, isso é o mermo que dizer “dá teus pulo!”, né não?! Magina! Costa de bufa é larga, plana e só desconforto, acho que ele não ia tê jeito pra isso é nunca. Avalie carregando motosserra. Té doido, costa de bufa perna de Luís nem abarca com firmeza.
Pió era que bufa de Luís pegava distância, lonjura incerta, de modo que nhô Reno estranhô demais caminho dele dento d’água. Aí, ele viu, quanto mais rio adento, mais água subia. O bufa tava era fazendo corpo mole, cumpade, pisando na manteiga pra demorá dento do rio. Por isso ele ia... com passo lento... pegando distância... ficando... demorando... preguiçoso... quase boiando... nem fucejá fucejava mais com o carro.
E bufa, cumpade Jeová, é bicho manhoso como o quê. O que eles têm de forte, eles têm de preguiçoso. Luís já ficando apavorado, coração acelerado, doido de medo de tê que pôr a motosserra nas costa e depois subir no lombo do indolente. Enquanto isso, o nive da água subia e o bufa dando uma de “tô nem aí”. Foi então que nhô Reno começô a mandá nome pro discarado, berrando com ele. “Tu côida logo disgrota! Tá doidijando, doido pra apanhá? Tu te assunta porque se eu for aí?! Ah.. se eu for aí?!” Na merma hora, o bufa se ajeitô. Afinal de conta, porco sabe o pau que se coça, então ele nem pensô duas vez e tratô logo de se aprumá, cambô no rumo certo. Quase derriba Luís com a força que puxô o carro. Jeová do céu, o siô acredita que era só preguiça do bicho? Ôh bicho preguiçoso que nem o diacho. Sem-vergonha mal’empregado!
Do outo lado do rio, deixaro os bufa e os carro por ali, e saíro atrás da árvore carregando as coisa, motosserra, cofo... e foro. Toparo com um pé de ipê, cedro ou andiroba, eu acho. Não entendi muito bem, Luís num conhece planta direito não. Cendro talvez não, era madeira pesada, dizend’ele. O certo é que as’aula de Luís pra cortá árvore começaro ali. Nhô Reno ensinô ele ligá e manuseá a motosserra, aí ele aprendeu como dá os talho e escolheu de que banda derribá ela. Luís fez purinho ensinado, porque criança aprende tudo, é só ensiná! A motosserra abriu um talho na árvore, um talho que Luís disse que sentiu dento dele, tão sentido que ouviu ela gemê de dô. Calado ele tava, calado ficô sentindo o sentido dele. Quando ela foi pro chão, a baixada maranhense debaixo dos pé dele tremeu inteirinha com a queda. Ele viu toda aquela água sair de dento dela e achô que era choro.
Passado esse primeiro baque, que Luís guardô caladim com ele, eles mediro e desenharo as marca das táuba no corpo dela. Começaro a talhá a madeira, cuidando pra não bandalhá nada. Nhô Reno fazia uma, Luís outa, e assim foro até por volta da hora de cumê, quando decidiro pará. Antes de cumê as jabiraca que levaro, nhô Reno pediu para Luís descansá um poco, ele ia bem ali, rapidim, sem demora buli armadilha pra pegá bicho.
Ali mermo Luís ficô, mas conforme passava tempo, cumpade, o medo foi se arrudiando até se enganchá nele. Só mato, só verde, só aquele silêncio que engrossa a solidão da gente... Aquilo que deve de tê feito ele baixá a cabeça e deixá o medo buliná nas ideia dele. Até em curacanga ele pensô naquela hora. E como o mundo é tudo que acontece, a totalidade dos fato e não as coisa que a gente vê, de longe, que nem cantiga que chega na atenção disprivinida, ele ouviu um grito: “Ôoooooô”... Isso deixô ele com cara de cachorro embarcado porque aquele som vinha se desviando do entendimento. Pr’ele aquilo era um limite porque ele não tinha pensamento pro que não tinha nome. O som não tinha sustância de sentido, faltava o arredó, o uso dele nos costume do dia. Cumpade sabe, né! É assim desde que o mundo é mundo, conforme muda as regra dos costume, muda o uso do dizê. Não carece do dito se fechá num castelo de pedra.
Diz que, nessa ignorância, enquanto a corage distraviava, o grito vẽi de novo, do mermo lugá: “Ôoooooooô”. Agora, a corage dele disbulhô todinha. Cruz credo, disconjuro Jeová! O som ricocheteô dento do mato, numa gulodice de chegá ne tudo. E Luís tremeu quissó, mar’que vara verde. Não sei com’ele não tocô o pé na carreira. Ele não sabia se aquilo era macaco, raposa, passo – que bicho que era. Até que ele é corajoso, porque ali ele tava vendo cu de cutia assubiá meio-dia, e não vastô pra trás. Isso num vergô ele. Mermo sendo piqueno criado ne cidade, letrado com livro de escola, ali ele tava besta como um uruá. Novo ainda, carecia da natureza do lugá onde nasceu. Diz ele que lugá e som partejaram de den’dele uma força que nasceu de repente, como doidice que dá na gente, como se fosse coisa de sonho, saiu forçando garganta com tudo, um uivo agudo que ele nunca tinha visto: “Huuuú...!” Agora, com cara de nhô Zé depois do acontecido, ficô caladim como se não tivesse sid’ele. Cabeça baixa, não disse nadinha, também não ouviu mar nada. Demorô um poco, nhô Reno voltô. Nem deu tempo de Luís abrir a boca, nhô Reno já quis sabê: por que a demora toda para respondê que tava tudo bem? Luís deu de ombro. Mar isso fez com que ele desse um salto pra den’dele mermo, guardando o aprendido. Magina só, de primeira não dá mermo pra entendê as regra do jogo.