Escritores
Alfredo Martins
Alfredo Martins gosta de ler, e muito! Os livros, revistas e quadrinhos presentes por toda sua casa (e mente) são prova disso. Contudo, escrever é um gosto maior e mais elaborado. Isso porque sempre se quis fazer desse gosto uma profissão, uma ocupação divertida para si por estar divertindo um leitor. Tem 53 anos, joseense raiz e bancário nas horas vagas. Casado, duas crianças, duas gatas e um cachorro.
Textos publicados
Os olhos de Iblis há muito já não tem o mesmo brilho. O vermelho alaranjado da aurora dos tempos, há muito não é visto. Desde a queda; desde o haraam. Desde que ousou alterar a criação de Allah, o misericordioso. Mas nem toda misericórdia foi suficiente para perdoar este pecado. Um minúsculo ponto de terra na fronteira entre onde hoje fica o Marrocos e a Argélia. Terra onde havia água. Plantas onde havia areia.
Os olhos de Iblis há muito já não tem o mesmo brilho. O laranja do primeiro encontro com os homens, há muito não é visto. Todo ato tem uma consequência, seja ela boa ou má. E o coração de Iblis já não encontrava motivos para ser bom. Refestelou-se na imperfeição dos homens e os homens faziam valer cada dor e cada submissão para terem o que desejavam.
Os olhos de Iblis há muito não tem o mesmo brilho. O amarelo alaranjado já era o máximo que se via quando a luxúria não mais abafava o grito de seus irmãos (pois todos caíram e gritaram). Finalmente percebera que o fogo dentro de si já não ardia como antes. E pela primeira vez perguntou-se " Ainda me castigas? "
Os olhos de Iblis há muito não tem o mesmo brilho. O amarelo que assemelha-se a uma vela e não mais do que isso, não realiza desejos; mal conseguem guardar lembranças e segredos. O rosto de Alah é apenas um borrão de luz. Seu próprio nome soa-lhe como o nome de outra pessoa e fala de Iblis como alguém que fala daquele vizinho de trinta anos atrás, com quem esbarrava duas ou três vezes no ano.
Os olhos de Iblis há muito não tem o mesmo brilho. O branco amarelado, quase os olhos de uma escultura de mármore, por um instante lembraram-se da velha chama, da face do misericordioso, dos anos em Bagdá e de quando trocava amor por nomes para as estrelas. Foi nesse momento que o djinn Iblis resolveu contar sua história. Pois muito pior do que cair, muito pior do que o fogo nada queimar, é ser esquecido.
No mundo de hoje, um mundo onde o fogo dos homens destrói uma cidade e deixa apenas sombras em paredes, um mundo onde homens voam mesmo sem terem asas, quando você precisa contar uma história, você chama um homem especialista em palavras, caçadores de histórias; um jornalista.
Assim Iblis o fez… E mais uma vez realizou um desejo. Umaúltima vez.
De longe ela já pode ser vista, a vendedora de flores. Seu nome é Aiyra Zahra, mas Ferdinand Tié ainda não sabe disso. Assim como não sabe que ela é filha de Ibn Rafah Zahra, um bem sucedido comerciante, morto durante um protesto há pouco mais de quatro anos. Tudo o que ele sabe é que aquela vendedora de flores é a mulher mais linda que já vira em seus 27 anos.
Por diversas vezes planejara um sorriso e um aceno de bom dia. Também planejara o ritmo ideal das pedaladas da sua velha Peugeot. Três segundos. Não poderia ser muito rápido, onde ela mal o visse, nem muito devagar, onde ela percebesse o abismo em que ele se encontrava. Mas para cada plano havia um sol nos olhos, uma poeira muito alta, crianças correndo, etc. Ao menos, assim sua mente sempre o convenceu.
Era 27 de julho, seu aniversário. Comprara osóculos de um piloto da guerra; uma pechincha. Não mais areia nos olhos. Tié poderia fazer um caminho diferente, conforme foi instruído no mercado. Mas o caminho mais curto não tinha flores e jamais em seu aniversário. O presente que decidiu dar a si mesmo era a retribuição de olhar e aceno.
Mas algum Deus, tenha sido o dele ou o dela - ainda que fosse o mesmo - decidiu que naquele 27 de julho a filha de Ibn Rafah Zahra estivesse ocupada atendendo uma casal. Ferdinand soltou um grito de frustração. E isso fez com que todos por perto olhassem para ele. Inclusive a florista. Ele já havia passado por ela; ainda assim olhou para trás. Teria o grito também chamado a atenção dela?
Sim. E pela primeira vez Ferdinand Tié cruzou um olhar com Aiyra Zahra. Feliz aniversário, Tié.
A distância até a pequena morada do djinn não era algo que percorria-se rapidamente. No caminho, repassava mentalmente as histórias que ouvira nas outras seis visitas que fizera. Anotara tudo num caderno volumoso e com capa de couro de búfalo. Dentro ele guardava uma foto do velho djinn; aúnica que ele permitiu tirar. " Em duas ou três fotografias, nada terá de mim além do que já tem em uma fotografia. " Tié mostrou a foto para Iblis depois de revelá-la. O djinn a segurou com as mãos e olhou-a com atenção antes de devolvê-la. Desde então, a foto nunca mais perdeu o cheiro de patchuli.
Ferdinand Tié, em meio às pedaladas, lembrara da história da viúva de Fez, que tinha certeza que as filhas gêmeas do seu finado marido planejavam a sua morte. Seu desejo era estar todas as noites nos sonhos das gêmeas para poder vigiá-las. Em troca, Iblis ficou com os dois escravos mais jovens e vigorosos que a mulher possuía. A viúva estava certa, pois, no quinto sonho que invadira, uma das gêmeas a segurava pelos braços e a outra a esfaqueava. A viúva nunca mais acordou.
Ouviu da boca do próprio djinn que este apaixonou-se e casou-se em algum momento do século XIV. Não tiveram filhos; não podiam ter… Iblis não podia ter. Não sabia disso até então. Nunca antes tinha se apaixonado, nunca antes tentara ter filhos. Teria nascido assim ou seria parte do castigo? Sua esposa morreu vítima da peste negra sem saber que o problema não era ela. Não, ele nunca contou. Era filhaúnica e sua morte foi o fim da semente do seu pai.
Ferdinand divagou sobre detalhes que a mente do djinn não conseguem mais guardar sobre aúnica viagem que fizera à Inglaterra, no século XIX. Nessa visita às terras da rainha Victoria, conheceu Rose Maller, uma farsa como quiromante. Mas a melhor cartomante que teve a oportunidade de conhecer. Iblis contou que ela não gostava de usar o seu baralho. Via muito mais do que desejava ver.
Era consultada toda semana por um mesmo cliente… Um primo ou sobrinho da rainha - um dos detalhes que perderam-se com o tempo - que ambicionava ser rei.
Quando Tié chegou na pequena morada de Iblis, percebeu algo diferente. A porta estava aberta. A porta sempre estava fechada. Bateu duas vezes com os nós dos dedos e entrou chamando. " Rabiy? " Não podia sentir cheiro algum. Sempre havia um leve e adocicado cheiro no ar. Iblis estava sentado, numa poltrona marrom e dourada, esperando por ele. O velho djinn nunca esperava sentado; estava sempre deitado. O ambiente não recebia muita luz naquela hora do dia e uma sombra cobria Iblis. Parecia estar dormindo. Suas pálpebras estavam… Fechadas?
Os olhos de Iblis há muito já não tem o mesmo brilho. O preto sepulcro assumiu o lugar onde, um dia, já tivemos chamas que traziam um pequeno Sol à noite. Tié tocou suas mãos. Estavam frias, mas não frias como um homem morto. Frias como a areia do deserto no meio da madrugada. Histórias esquecidas e incompletas; não era muito o que Ferdinand Tié tinha em seu caderno. Planejara um livro. Tinha, no máximo, um artigo. Escolhendo bem as palavras, conseguiria meia página.
Antes de fazer o caminho de volta, Tié colocou o corpo daquele que um dia foi o maior de todos os djinns, em sua cama. Embrulhou-o com os mesmos lençois brancos que cobriam o leito e fez uma oração. Não sabia nenhuma oração do Alcorão, então, precisou improvisar. No retorno a Figuig, Ferdinand fez uma pausa para comprar uma rosa, declarar seu amor e deixar a vendedora cheia de perguntas. Em seu quarto, sentado em sua cama, anotara aquele que seria o título de seu artigo… O fim do fogo.